sexta-feira, 19 de abril de 2013

O Catador de Memórias - Fragmentos II


[...]
A sopa ficou tão famosa que passou a servi-la todo final de tarde. Até o velho padre vinha tomar uma cambuca depois da missa das oito. Atravessava a praça andando rápi­do com sua batina esvoaçando e voltava para a casa suando, devido à pimenta e o cominho do caldo. Pedia sempre que enchesse um pote de sopa para a irmã, dona Minerva, que cuidava da limpeza da casa paroquial e da igreja há tanto tempo que nem se lembrava mais. E foi assim, através da sopa, que começaram a se comunicar.
– Bom dia, seu Raimundo.
– Bom dia, dona Minerva.
– Tinha alecrim ontem?
– Tinha sim, para dar certo frescor, a noite estava um pouco quente.
Ou:
– Bom dia, seu Raimundo.
– Bom dia, dona Minerva.
– Era páprica picante?
– Ah sim, a senhora notou? Fico muito feliz.
A coisa chegou a tal ponto que ela ansiava pelo ritual da sopa a cada noite. Imaginava que ele lhe fazia carícias através dos temperos. O alho passava a mão nos seus pés. A cebola dourada na manteiga deitava em seu peito. Já a pimenta dedo-de-moça mordiscava-lhe a orelha. O man­jericão eram beijos longos e molhados. Açafrão beijos na nuca, já o alecrim, nos seios. Noite a noite a imaginação vo­ava cada vez mais longe, bebia a sopa sofregamente e nem enxaguava os dentes para dormir. Tinha sonhos confusos em que acordava com as carnes úmidas, suor abundante sobre a pele e os lençóis com aroma de orégano.
[...]

Fragmento do conto “A Vila dos Temperos” do livro “O Catador de Memórias”

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