[...]
A sopa ficou tão famosa que passou a servi-la todo
final de tarde. Até o velho padre vinha tomar uma cambuca depois da missa das
oito. Atravessava a praça andando rápido com sua batina esvoaçando e voltava
para a casa suando, devido à pimenta e o cominho do caldo. Pedia sempre que
enchesse um pote de sopa para a irmã, dona Minerva, que cuidava da limpeza da
casa paroquial e da igreja há tanto tempo
que nem se lembrava mais. E foi assim, através da sopa, que começaram a se
comunicar.
– Bom dia, seu Raimundo.
– Bom dia, dona Minerva.
– Tinha alecrim ontem?
– Tinha sim, para dar
certo frescor, a noite estava um pouco quente.
Ou:
– Bom dia, seu Raimundo.
– Bom dia, dona Minerva.
– Era páprica picante?
– Ah sim, a senhora
notou? Fico muito feliz.
A
coisa chegou a tal ponto que ela ansiava pelo ritual da sopa a cada noite.
Imaginava que ele lhe fazia carícias através dos temperos. O alho passava a mão
nos seus pés. A cebola dourada na manteiga deitava em seu peito. Já a pimenta
dedo-de-moça mordiscava-lhe a orelha. O manjericão eram beijos longos e
molhados. Açafrão beijos na nuca, já o alecrim, nos seios. Noite a noite a
imaginação voava cada vez mais longe, bebia a sopa sofregamente e nem
enxaguava os dentes para dormir. Tinha sonhos confusos em que acordava com as
carnes úmidas, suor abundante sobre a pele e os lençóis com aroma de orégano.
[...]
Fragmento
do conto “A Vila dos Temperos” do livro “O Catador de Memórias”
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